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 Dia 8, na livraria Ler Devagar, da LX Factory, o livro "partir por todos os dias", de José Maçãs de Carvalho, foi apresentado por Fernando Sobral, uma apresentação que aqui fica na íntegra a belíssima intervenção que fez.

 

"A FOTOGRAFIA É UMA LÍNGUA FRANCA QUE TODOS PODEM APRECIAR"

A fotografia é capaz de ser a melhor forma de apreciar o silêncio num mundo de ruídos. René Clair dizia mesmo que o silêncio era de ouro e, por isso fez um filme com o mesmo nome. Mas, silenciosa, a fotografia fala. Com o nosso olhar e com as nossas emoções. É uma língua franca que todos podem apreciar e, se quiserem, compreender. É talvez isso que mais é visível nas fotografias de José Maçãs de Carvalho. Não é irrelevante que, expondo-se nas áreas da fotografia e do vídeo, seja formado em literatura. Os seja, as suas fotografias são páginas de prosa ou de poesia. Contam-nos histórias de pessoas reais envoltas no seu mundo. Uns que conhecemos, outros que desconhecemos, outros que julgamos conhecer. As pessoas que encontramos nas suas fotos não são imagens: reflectem um tempo. “Partir por todos os dias”, o belo livro que aqui nos traz, é uma viagem pelo tempo. Um tempo de Oriente, sobretudo à volta da China e de Macau, mas que não se esgota aí.

 

Quando se olha com atenção para as fotos de Maçãs de Carvalho, especialmente nesse porto entre mundos, Macau, não posso deixar de pensar em negociação. Entre artes, como o autor sabe muito bem fazer, ou entre pessoas de culturas diferentes. Quando se assumia erradamente que o centro do mundo era a Europa, Vasco da Gama chegou à Índia. Os portugueses aportaram depois à China, ao Japão, ao Ceilão, ao Vietname, à Tailândia ou à Malásia. Idealizámos o Oriente em Lisboa e esta tornou-se o porto onde se cruzavam os aromas de especiarias exóticas. Se conhecíamos a Arábia, desvendámos outras longitudes. Foi o primeiro passo de um encontro mais vasto entre Ocidente e Oriente onde o comércio serviu para unir línguas diferentes. Como lembrou Vitorino Magalhães Godinho, “Os Lusíadas”, de Camões, foi o grande poema do comércio moderno. Os portugueses estiveram perto de se tornar deuses. Mas os séculos e o cansaço da descoberta e a obesidade da riqueza, acabaram por nos trair. Perdemos as ligações comerciais e culturais com este enorme mundo que vai das margens do Mediterrâneo até aos mares da China. E, sobretudo, desprezámos a curiosidade. Apesar de Macau, de Timor ou de Goa. Por isso recuperar o conhecimento, a curiosidade e as velhas ligações que esquecemos, também são a essência deste livro. Fernando Pessoa chegou a escrever: “Pertenço a um género de portugueses/Que depois de a Índia estar descoberta/Ficaram sem trabalho”. Podemos voltar a descobrir esse mundo através de fotografias.

 

Mas voltemos a esta ligação entre a literatura, a fotografia e o vídeo, que está sempre presente na obra vasta de José Maçãs de Carvalho. A sua ligação ao Oriente também se pode fazer por aí. Caligrafia, pintura e poesia constituem-se como as maiores artes da China e são vistas por todos como as genuínas vias de expressão do génio artístico individual. Ao longo dos séculos, na China, a criação da arte da caligrafia, ou a arte de tornar bonita, elegante e expressiva os caracteres da escrita, fez com que deixasse de ser um simples instrumento de transmissão de conteúdos, para se tornar numa forma de arte. Nela, o papel, um dos maiores legados chineses às civilizações, foi o seu suporte fundamental. Com a fotografia aconteceu o mesmo, no Ocidente. Mesmo na era da digitalização, o papel é o suporte sublime da fotografia. Como se pode ver, folheando as páginas deste livro, composto de fotos de viagens entre a Europa e a Ásia entre finais da década de 1990 e os nossos dias. Há nele fotos que reflectem diferentes estados de alma nas mais diversas circunstâncias, entre o brilho artificial das cidades e a densidade de um momento, como se pode ver por exemplo numa foto, a preto e branco, tirada durante uma das fases de construção, rumo ao céu, na Taipa, em Macau. Aqui também há escrita nas entrelinhas, como na foto que esta na capa, na praça de Tiananmen em Pequim. Os olhos de Mao Zedong que tudo observam são quase desafiados por alguém que tem os olhos tapados. Como se não quisesse ver.

 

O poder da sensibilidade de Maçãs de Carvalho revela-se também numa outra, de que muito gosto, tirada em Ko Tao, na Tailândia, onde o olhar está perdido noutras realidades. Numa era em que todos podem tirar fotografias, é a força interior delas que revela a qualidade de um artista. Foi Cecil Beaton que  disse, um dia, que a fotografia, em si, não era uma arte mas que um fotógrafo poderia ser, de certeza, um artista. A força da fotografia é isto. E Maçãs de Carvalho desvenda-a de forma sublime, num mundo alimentado por imagens, algumas delas desvalorizadas pela banalidade. Estas que aqui estão, neste livro cuidado e que está repleto de aromas do Oriente, não são jogos de sombras. São reflexos do tempo. Talvez sejam um caminho para outras descobertas. Talvez por isso não quero terminar sem recordar um poema de um dos grandes mestres da poesia chinesa, Li Bai, o seu “Diálogo na Montanha”:

 

Perguntais porque motivo moro na montanha verde,

Intimamente sorrio mas não posso responder.

As flores de pessegueiro são levadas pela água do rio...

Há outro céu e outra terra para além do mundo dos homens.

 

 

 

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